PostHeaderIcon O Beco escuro

                                                                            O BECO ESCURO

Quem foi criança em Monsenhor Paulo, nas décadas de 50/60, há de se lembrar, com certeza, do famoso “Beco Escuro”. Ligando a Praça da Matriz à Rua Coronel Zoroastro de Oliveira, a pequena rua, ou melhor, a travessa em declive tinha poucas casas. Se possuía nome oficial, e certamente possuía, todos desconheciam pois não havia quem se referisse ao local se não como o “Beco Escuro”. A iluminação precária da Companhia Sul Mineira de Eletricidade, somada à imaginação fértil da criançada, criavam o ambiente propício ao aparecimento de várias lendas. Durante o dia, o Beco era um lugar como outro qualquer, por onde passávamos, sem temor, nas andanças e brincadeiras pelas ruas, tão comuns naquela época! Bastava escurecer para que se tornasse local “mal-assombrado”, onde, diziam, um sapatinho de cristal corria atrás de quem se atrevesse por lá passar. Os garotos mais velhos faziam apostas para saber quem era realmente corajoso. Desciam ou subiam o Beco correndo, com muito medo, diga-se de passagem, para depois se juntarem nos bancos da praça, onde faziam comentários sobre a aventura. Cada um narrava sua experiência com o sapatinho de cristal, acrescentando detalhes que deixavam os menores aterrorizados. Mas, para mim, o Beco tinha um sabor especial. Lá morava meu irmão mais velho, José Lázaro, carinhosamente apelidado Juju. Gerente do então Banco da Lavoura, a esposa Dona Glória, professora competente e estimadíssima, com seus quatro filhos: Tânia, Beto, Donizete e Telma, formavam uma bela família. Nas tardes de Sábado, Dona Nair, minha mãe, autorizava-me a ir brincar com os sobrinhos, que tinham quase a minha idade. Passávamos horas e horas, lendo histórias, ouvindo música ou distraídos com jogos educativos. E tudo isso, com direito a um gostoso lanche, preparado por Tereza, negra forte e despachada, perfeitamente integrada à família, pois todos a conheciam como “Tereza do Ju”. Tudo estava muito bom, porém, mal começava anoitecer, as sombras se acentuando sobre o Beco, era hora de voltar para casa. Não arriscava nem um pouco ter de voltar correndo, com um sapatinho de cristal no meu encalço. Hoje, quando passo por lá, a caminho da igreja, observo com saudades a casa que permanece tal e qual era naquela época. Mas, os moradores se mudaram, as crianças cresceram e constituíram suas próprias famílias. Em minha mente, ainda ecoam risos de crianças despreocupadas, sons de velhas cantigas de roda, retalhos de histórias infantis… O Beco não tem mais aquele “quê” de mistério e o sapatinho de cristal tornou-se apenas mais uma de minhas doces lembranças de uma infância muito, muito feliz.

Vera Lúcia Belato Baldim Nepomuceno, 29/11/2004

 

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