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                                        SEXTA-FEIRA SANTA
                                      
Adaptação: Francisco de Paula Belato

 

Antigamente na sexta-feira santa tudo se entristecia, porque há séculos o filho de Deus, feito homem, deu sua vida para salvar a humanidade.

As imagens da igreja se preservavam aos olhos dos fiéis, cobrindo-se de panos roxos. Havia tristeza, mesmo para as crianças que não compreendiam os fatos narrados pelos padres em seus sermões. Conversava-se o mínimo possível e em voz baixa. Comércio fechado, dia de jejum e abstinência.

Os sinos e campainhas se emudeciam e só o som forte e soturno das matracas - instrumento formado por uma tábua com argolas de ferro que ao ser agitada batem na tábua a que se acham presas e produzem uma série rápida de sons - ecoava nas celebrações e procissões. Tudo em respeito ao que ia morrer, novamente, para salvar os homens e suas almas, perdoando pecados e erros. Às três horas da tarde uma multidão de povo apinhava na Matriz para ouvir o Sermão das Sete Palavras. À noite a cerimônia do Descimento da Cruz com novo sermão do querido Padre Fernando. Depois a procissão do enterro momento de grande fé e aguardado com ansiedade. Nos ouvidos ainda ecoam os sons lamurientos da banda de música regida pelo maestro Zequinha Silveira, que tocava músicas fúnebres e aquela fila imensa de fiéis, com velas acesas nas mãos, acompanhava o andor e o padre Fernando que caminhava lentamente sob a esteira de prata da lua cheia de uma bela noite outonal. As figuras representativas desfilavam sob a curiosidade das crianças que eram assustadas pelas batidas do centurião, encarnado na pessoa do Sr. Américo Silveira. Madalena representada por Pulchéria Caovila; João Evangelista o jovem Homero Baldim; Arimatéia e Nicodemus os senhores José do Patrocínio Silveira e Pedro Oliveira. A figura de Verônica, desempenhada pela senhorita Irene Marques da Cunha, que, desenrolando lentamente um véu com a reprodução do rosto ensanguentado de Cristo cantava com voz lúgubre e bem timbrada a plangente melodia repassada de infinita tristeza e de agoniada ternura:  “O vos omnes qui transitis per viam, attendite et videte si est dolor sicut dolor meus”, traduzindo “Ó vós todos, que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor igual à minha dor”.

 Ao povo da cidade se juntava o pessoal vindo das áreas rurais com suas famílias em roupas domingueiras, hospedando-se nas casas de parentes.
As emissoras de rádio só tocavam músicas clássicas e orquestradas.

Os caminhões que buscavam leite nas fazendas não saiam das garagens.

Os fazendeiros doavam o leite para a população e as crianças saiam da cama de madrugada e se dirigiam as fazendas com latas nas mãos para buscar o leite. Era dia de doce de leite e muito arroz doce.

Sábado da Aleluia, dia de malhar o Judas, um boneco de pano recheado de bombinhas era confeccionado e colocado em um poste de madeira onde era malhado e queimado, geralmente na madrugada de sábado para domingo de Páscoa, quando a moçada aproveitava para fazer arruaças pela cidade, tudo de acordo com o figurino de uma cidadezinha interiorana.

Hoje, tempos coloridos das novelas de televisão, o assunto não desperta interessante, mas reaviva a memória já cansada, rememorando tempos que não voltam e vozes que já não falam, mas recordam de um momento inesquecível vivido na pureza da infância em Monsenhor Paulo.

Nos tempos modernos as famílias aproveitam a folga para temporada à beira-mar, viagens de turismo ou visitar parentes distantes. Não se respeita mais o silêncio devido e tudo é permitido, desde barzinhos e casas noturnas com som nas alturas até altas horas.

      Quem sabe, a infância não exista justamente para provarmos um pouco da saudade?

 

Comentários  

 
+1 #2 Regina Coeli Baldin 16-04-2014 13:26
Que presente este texto! Com simplicidade, traz cores, sons e lembranças que acordam em nós o santo tempo de nossa infância! Gratidão, Chico por compartilhar!
Regina
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+1 #1 maria marta de Figu 16-04-2014 12:32
Boa tarde ! sou de Mons:Paulo e moro no Rio há 34 anos , gostaria de receber sempre notícias da cidade. Abraços
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